O consumo de informação na era das fake news



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O consumo de informação na era das fake news

Sabendo que o acesso à informação é fundamental para o exercício pleno da cidadania, como garantimos enquanto sociedade que esse direito seja respeitado na era das fake news? Se por um lado a descentralização na produção de informações possibilita maior democratização das narrativas, por outro ela gerou a produção sistemática de conteúdo falacioso que contribuem para a desinformação.

Diante do debate global envolvendo o grande número de informações falsas ou imprecisas, alavancadas principalmente pelas redes sociais, a MindMiners realizou um estudo em parceria com o polo de impacto social CIVI-CO para entender como as pessoas estão consumindo informações e lidando com as fake news.

Relação do consumidor com a mídia

Apesar se muitas vezes ser colocado como uma mídia do passado, o jornal ainda tem um papel fundamental em representar o que é a imprensa na percepção das pessoas. De fato, esses veículos estão passando por processos de modernização e adaptação para se encaixar nas novas formas do público de consumir informação, mas graças a credibilidade atribuída ao longo de anos e décadas, essa é a primeira mídia que os respondentes relacionaram à palavra “imprensa”.

Quando você ouve IMPRENSA, qual é a PRIMEIRA PALAVRA que vem à sua mente?

Por falar em modernização, a televisão aberta que dominou a audiência nas últimas décadas, hoje disputa espaço com a internet na disseminação de informações, em especial com as redes sociais.

Canais mais utilizados pelos respondentes para se manterem atualizados:

54% utiliza a televisão;
66% redes sociais;
65% portais online de notícias.

Entre os veículos tradicionais, os grandes grupos e principalmente seus canais de televisão aberta são os preferidos pelos respondentes:

41% Globo;
28% Record;
25% SBT;
24% Globo News.

Quando falamos de canais digitais, apesar da ascensão de mídias independentes, alguns dos grandes grupos de comunicação continuam se destacando e são muito utilizados pelos respondentes para se informar:

48% G1;
40% Youtube;
38% Facebook;
26% Instagram.

Qual a melhor forma/formato para consumir informação?

Mesmo com importância histórica do rádio da ascensão dos podcasts nos últimos anos, apenas 4% tem no áudio o seu formato favorito para acompanhar notícias. Por outro lado, o rádio ainda é uma das mídias tradicionais mais utilizadas pelo público para se informar.  52% dos respondentes se atualizam através dessa mídia pelo menos uma vez por semana.

Mesmo sendo considerado uma tendência para os próximos anos, os podcasts ainda não são um formato habitual entre os respondentes. Apenas 25% dos respondentes escuta programas nesse formato pelos menos uma vez por semana.

O texto está morrendo?

Apesar da dinamicidade oferecida pelos novos formatos de mídia alavancados principalmente pela TV e internet, a leitura ainda é considerada a melhor forma de se informar. O que mudou foi os meios pelos quais o público faz sua leitura. Se antes era necessário ir até a banca ou fazer uma assinatura de jornal/revista, hoje em dia todo o conteúdo nos acompanha nos celulares, tablets e computadores. Mesmo que por meio de vídeos seja mais fácil explicar e contextualizar uma situação ou fato ocorrido, o hábito da leitura ainda é apreciado pelo público.

53% dos respondentes preferem notícias em texto;
42% dos respondentes preferem notícias em vídeo.

Qual tipo de informação é importante?

Antes de tudo, estar informado é uma questão de satisfação pessoal, segundo a opinião de 70% dos respondentes, mas entre os temas que mais despertam interesse estão aqueles que afetam o cotidiano do público enquanto cidadãos.

A política, por exemplo, é um assunto de alta influência na vida das pessoas, mas também muito controverso quando falamos de compartilhamento de informações. Se por um lado ela é o assunto de maior interesse dos respondentes, quando questionados sobre o que os jornalistas deveriam falar menos, a maior parte citou também esse tema. Uma das possíveis interpretações para essa contradição pode ser o fato de o público considerar o tema relevante, mas entender que em determinados momentos deva ser tratado com imparcialidade por parte dos comunicadores.

Outros assuntos de interesse:

46% Tecnologia;
33% Economia;
26% Ciência;
23% Esporte.

Informação e opinião

Transmitir a informação com imparcialidade ou expressar seu ponto de vista?

Quando falamos de formadores de opinião com os respondentes alguns dos nomes mais citados, como foi o caso do jornalista Willian Bonner, não expressam necessariamente sua opinião durante o seu exercício de transmitir informações, mesmo assim são vistos como alguém capaz de influenciar o pensamento dos espectadores.

Quais são os formadores de opinião que você mais gosta? Escreva aqui o nome deles.

O que podemos notar também é que com o surgimento e expansão dos canais digitais, que representam uma forma mais horizontal de produzir conteúdo e transmitir informações, surgiram muitos formadores de opinião que abordam os mais diversos temas ou que conciliaram carreiras nos veículos tradicionais com essas novas formas e formatos.

O jornalista Alexandre Garcia, um dos formadores de opinião mais citados pelos respondes, é um exemplo da conciliação entre produção de conteúdo digital e nos veículos tradicionais. Além de comentarista em emissoras de rádio e TV, o jornalista ainda possui um canal no Youtube, onde comenta acontecimentos relacionados a política e economia.

Informação ou desinformação? O que é real ou não?

A chamada era da informação trouxe a possibilidade de todos nós sermos agente ativos na produção de informações jornalísticas. A princípio parece uma oportunidade ótima para que todos tenham sua voz e mais perspectivas sejam abordadas. Entre os respondentes por exemplo, 58% disseram gostar de iniciativas como Jornalismo Cidadão, Jornalismo Colaborativo, Jornalismo Democrático ou ainda Jornalismo Open Source (código fonte aberto), que representam a possibilidade de cidadãos comuns, sem formação jornalística, participarem do processo de construção e produção de notícias.

Contudo, a capacidade de produção extrapolou a de verificação. Em meio a produção massiva de informações, oriundas das mais diversas fontes, não somos capazes de verificar a veracidade de cada uma delas, coletivamente ou individualmente. Esse cenário se tornou propenso para produção do que conhecemos hoje como “fake news” ou, em tradução livre, as notícias falsas.

Para tentar alertar o público sobre o perigo representado por esse tipo de conteúdo, a Rede Globo promoveu um experimento onde reuniu um grupo de pessoas diversas e espalhou uma notícia falsa entre elas para entender quais seriam as possíveis proporções alcançadas por essa informação.

Disseminação de informações falsas

Quando o assunto é fake news, todas as redes sociais entram de alguma forma nesse debate, contudo o WhatsApp se destaca como o principal canal de propagação desse tipo de conteúdo. A rede foi a mais apontada pelos respondentes nesse sentido e atualmente passa por um processo de investigação por parte de autoridades governamentais. Desde 2019 uma comissão de senadores instaurou a CPMI das Fake News que tenta entender o uso dessa rede social durante a campanha eleitoral de 2018.

Levando em consideração o que os respondentes afirmam, podemos considerar que uma minoria de pessoas que não se preocupa em checar às informações recebidas, acabam contribuindo para a grande disseminação de notícias falsas ou imprecisas.

83% dos respondentes concordam com a afirmação: “Sempre me certifico da veracidade de uma notícia antes de compartilhar.”
63% dos respondentes concordam com a afirmação: “Recebo diariamente notícias falsas em minhas redes sociais.”

Por outro lado, isso pode indicar o uso de ferramentas de automação para disparos em massa, que através de falsos perfis disseminam essas informações, sendo elas reverberadas por usuários reais.

Como combater a desinformação?

De acordo com os próprios respondentes, o público em geral sabe como distinguir uma notícia falsa de um verdadeira e se preocupa em não compartilhar algo antes de verificar a fonte. O que pode ser um indicativo que o combate contra fake news pode estar próximo, graças ao entendimento do público de não levar em consideração esse tipo de informação.

Contudo, não é possível concluir que o público de fato está sabendo identificar o que é real ou não, uma vez que a falsa ideia de que estão identificando de maneira correta pode estar contribuindo para essas notícias sejam compartilhadas como verdadeiras.

No intuito de quebrar esse ciclo de produções falsas, algumas iniciativas estão promovendo uma verificação de informações compartilhadas, principalmente através de redes sociais, como é o caso do Projeto Comprova. Liderado pela ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), a iniciativa reuniu jornalistas de diferentes veículos de comunicação para verificar informações de alta repercussão.

Ainda assim, devido aos grandes problemas causados por informações falsa, outros grandes grupos de mídia, tecnologia e comunicação como a Rede Globo, Jornal Estadão e Google também estão desenvolvendo ferramentas e soluções que ajudem nesse processo de diminuição do impacto negativo causado pelas fake news.

Entre os profissionais de comunicação, o desafio vai além do trabalho de verificar as informações geradas por outras fontes, mas também passa pelo papel de conquistar (ou reconquistar) a credibilidade perante a audiência. 41% dos respondentes concordaram com a afirmação: “Os jornalistas parecem menos capacitados nos dias de hoje.”

Para ressaltar a relevância e a complexidade do processo de jornalismo investigativo, o veículo americano The New York Times criou a campanha “The truth is Worth it”, que narra a produção de duas histórias de investigação real feitas pelo jornal.

Consideradas vilãs na disseminação de fake news, as redes sociais Facebook e Instagram já contam com ferramentas de verificação e alerta sobre conteúdo falso também. Em parceria com a agência de fact-checking Lupa, as redes indicam aos usuários quando um conteúdo publicado não é verdadeiro e emite alertas para que não sejam compartilhadas.

Apesar dessas iniciativas, essa é uma luta muito maior para os usuários que precisam saber identificar e não disseminar. A Professora da PUC-SP, escritora e jornalista Pollyana Ferrari discute em seu livro "Como Sair das Bolhas" como a produção e disseminação de conteúdo falso podem impactar na vida real das pessoas e o combate as fake news depende do esforço individual para que elas não se espalhem.

Perfil da amostra

Fonte: MindMiners


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