As bets passaram a fazer  parte da realidade financeira de uma parcela relevante dos brasileiros. Em 2025, mais de R$220,6 bilhões foram movimentados por casas de apostas autorizadas no país. No primeiro semestre de 2026, cerca de 15,2 milhões de brasileiros realizaram apostas em plataformas autorizadas. Em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória nº 1.394/2026 proibiu as bets no país; a medida já está em vigor, mas ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional.

Mas olhar apenas para o tamanho desse mercado não explica o fenômeno. A questão para quem acompanha o comportamento do consumidor é outra: de onde está vindo o dinheiro destinado às apostas e o que acontece com as outras decisões de consumo quando esse dinheiro entra no orçamento?

Para investigar essa dinâmica, a MindMiners, em parceria com a Scanntech, entrevistou 2.000, antes da proibição, brasileiros adultos, sendo 522 apostadores de bets digitais. Os dados mostram que as apostas não funcionam como uma categoria isolada: elas entram em um orçamento que já precisa dividir recursos entre consumo, contas, crédito, lazer e reserva financeira.

Bets já disputam espaço dentro do orçamento do brasileiro

26% dos entrevistados afirmam apostar em bets digitais. Em uma extrapolação indicativa para a população brasileira adulta, isso equivaleria a cerca de 43 milhões de pessoas, número que o próprio estudo ressalta não representar uma estimativa oficial de apostadores no país.

Mas existe uma pergunta ainda mais interessante: se esse dinheiro não estivesse indo para as bets, para onde ele iria? Entre aqueles que apostam, 40% afirmam que direcionariam esse dinheiro para supermercado básico caso ele deixasse as apostas. Outros 35% destinariam a contas e dívidas, enquanto 33% mencionam tanto indulgências no supermercado quanto poupança ou investimentos.

Quem é o consumidor que aposta nas bets?

Na pesquisa, o apostador apresenta idade média de 38,7 anos, 63% são homens e 52% pertencem às classes A/B. Além disso, 48% dizem que sua situação financeira está melhor do que há 12 meses.

Ao mesmo tempo, existe um contraste importante: 75% dos apostadores haviam atrasado contas, contra 50% entre aqueles que não apostam. A diferença aparece também na intenção de consumo: 36% dos apostadores afirmam que certamente comprariam na Black Friday, contra apenas 14% entre os não apostadores.

É justamente essa combinação que torna o comportamento desse público relevante para as marcas. O apostador não deixou de consumir. Ele continua demonstrando desejo de compra, mas esse desejo acontece em um cenário de maior pressão sobre o orçamento.

O comportamento do consumidor muda quando as bets entram na equação?

Mesmo diante de uma situação financeira mais pressionada, 61% dos apostadores pretendiam comprar na Black Friday, contra 29% entre os não apostadores. E, entre aqueles que planejavam comprar, 41% dos apostadores pretendiam gastar mais de R$1 mil, enquanto apenas 29% dos não apostadores estavam nessa faixa.

Ao mesmo tempo, o comportamento cotidiano mostra sinais de restrição. Entre os apostadores, 28% relatam cortes em produtos de supermercado, contra 17% entre quem não aposta. No caso de produtos de limpeza, a diferença chega a 36% contra 14%.

Bets e crédito: quando os fluxos financeiros começam a se misturar

A relação entre apostas e crédito também chama atenção. Entre os apostadores, 45% já utilizaram algum tipo de crédito ou produto financeiro para apostar ou cobrir uma perda. Mais do que um uso pontual, 23% afirmam ter recorrido a esses recursos mais de uma vez.

O dado ajuda a mostrar que o dinheiro destinado às bets não está necessariamente isolado do restante do orçamento. Em alguns casos, crédito, consumo e apostas passam a disputar espaço dentro da mesma vida financeira.

O que as bets revelam sobre o comportamento do consumidor brasileiro?

Os dados mostram um consumidor mais complexo do que a simples ideia de “apostador” pode sugerir.

As bets já alcançam 26% da amostra, enquanto seus usuários continuam demonstrando intenção de consumo, inclusive em momentos como a Black Friday. Ao mesmo tempo, esse público apresenta maior exposição a atrasos, cortes no supermercado, crédito e consignado.

Para as marcas, isso significa que acompanhar o comportamento do consumidor exige olhar para além da intenção declarada de compra. É preciso entender quais disputas estão acontecendo dentro do orçamento, quais categorias estão perdendo espaço e quais continuam conseguindo capturar o dinheiro disponível. Com a proibição das bets, essa leitura também ajuda a antecipar para onde esse dinheiro pode ser redirecionado.

Quer entender o que está acontecendo com o bolso do brasileiro?

O estudo “Bets e a disputa pelo bolso”, realizado pela MindMiners em parceria com a Scanntech, aprofunda a relação entre bets, crédito, consumo e comportamento do consumidor, além disso, traz outros dados sobre quem aposta, como esse público consome e quais categorias estão disputando esse orçamento.